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        Onde Judas Perdeu as Chuteiras
        Paulo Mangerotti
        2023/11/24
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        Luz aos esquecidos, onde aqueles andarilhos do futebol vão parar. Onde as traves estão desalinhadas e o campo mal demarcado. Onde os cachorros invadem o gramado e o VAR não foi convidado. Onde?

        A teoria do fundo do poço não existe. Pelo menos, se a ferramenta apresentada para sair dele for uma pá ao invés de uma escada. A claustrofobia de encontrar-se sozinho em um local ermo pode levar a medidas desesperadas, como cavar cada vez mais na falsa esperança de aproximar-se de uma solução. Obviamente, a consequência é afundar-se mais e mais. Não há resposta mágica, mas só uma realidade triste para dois gigantes em tradição e torcida: Deportivo La Coruña, na Espanha; e Santa Cruz, no Brasil.

        Pode parecer exclusividade do Santinha, um clube que disputou o Brasileirão 21 vezes e ano após ano consegue surpreender, dentro e fora do país, com estádio lotado, acima do tamanho do que disputa nos últimos anos, a Série D. Aliás, disputava.

        A tragédia está consumada desde julho, quando foi eliminado precocemente da 4ª divisão, mas já era anunciada desde março, quando conseguiu a proeza de perder para o "pior time do mundo", Íbis, e ficar sem a vaga na Série D de 2024. Como se sabe, as vagas na Série D são garantidas apenas para os rebaixados da Série C, os demais clubes se classificam pelo estadual, o que o Santa Cruz não conseguiu. Aí vem a parte da ferramenta, da pá ao invés da escada.

        O Santa Cruz fracassou em campo e tentou, fora dele, resolver seus problemas. A expectativa era abocanhar a vaga do bem menos tradicional Petrolina. O time pernambucano pegou a vaga pelo estadual e vai voltar aos torneios nacionais após 12 anos, última e única vez que disputou a Série D. É comum que clubes abram mão da vaga por uma logística financeira, o Petrolina já avisou repetidamente: não o fará. Aí foi a vez da Federação Pernambucana sugerir um aumento de vagas na última divisão, algo que beneficiaria o Santinha, mas a CBF refutou. E o Deportivo La Coruña com isso?

        Quem cresceu na década de 90 e acompanha o futebol espanhol, provavelmente, se pergunta: "o que aconteceu com o Deportivo?". Lá nos anos 90, muito antes do Girona, atual líder de La Liga, sonhar em disputar a elite, o La Coruña era campeão nacional com uma legião brasileira formada por Djalminha, Mauro Silva, Flávio Conceição e Donato. Eram outros tempos, em que a Espanha não se resumia a Madri ou Barcelona.

        O La Coruña, depois daquele título, ainda foi protagonista por mais alguns anos, antes de se tornar um time de meio de tabela. No início da década passada, temporada 2010/11, começou uma luta incessante contra o rebaixamento, até que caiu de vez em 2017/18 e mergulhou de cabeça no fundo do poço. "Sorte que não bateu a cabeça, menino", diria minha mãe. Mas o La Coruña só não bateu a cabeça porque ainda não encontrou o fundo. 

        Depois de cair para a segunda divisão, o time foi para a terceira. Está lá há quatro temporadas, e vive em 2023/24 sua pior fase na terceirona. Nas primeiras vezes, o clube ensaiou o acesso, chegou até a semifinal, mas caiu na prorrogação. Cruel. O destino infeliz se repetiu, idêntico, nos dois últimos anos. Mas sabe o que é mais cruel? Sequer lutar para voltar de onde nunca deveria ter saído. 

        O Deportivo la Coruña, hoje, é o 10º colocado no Grupo 1 da terceira divisão. Está atrás do BBB. Os times B do Celta de Vigo, Real Sociedad e Barcelona. Fora uns tantos mais. No domingo (26), o time volta a entrar em campo, vai jogar em casa no lendário Riazor, estádio que no último jogo em casa viu 34 mil torcedores nas arquibancadas. Se algo serve de exemplo para o La Coruña é que a torcida até ajuda, mas não ganha jogo, apesar do romantismo popular acreditar que sim. Fosse isso, Deportivo e Santa Cruz jamais estariam onde estão.



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