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Zico: o Galinho de Quintino

Texto por Carlos Ramos
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Arthur Antunes Coimbra, mais conhecido como Zico, é o maior ídolo da história do Flamengo e quem acompanhou de perto sua carreira garante que se trata de um dos maiores jogadores da história não só do futebol brasileiro. O meia, genial, era também goleador. Teve carreira também na Europa e na Ásia, mas o auge foi mesmo em sua casa, o Maracanã. 

O Mário Filho, claro, não foi sempre a casa de Zico. O menino franzino começou a jogar em seu bairro, Quintino, também na Zona Norte do Rio de Janeiro. O futebol estava no sangue de sua família, já que seus irmãos também jogavam. Edu chegou a ter carreira sólida no futebol carioca, sendo ídolo do América. 

Tentando seguir os passos do irmão mais velho, Zico começou a jogar no futsal. Até que um dia, atuando pelo River da região, chamou a atenção de Celso Garcia, radialista na época e que tinha laços de amizade com a família do jovem.  O jornalista, então, levou Zico para a Gávea. 

Galinho franzino

Zico chegou na Gávea com 14 anos. Era pequeno e muito franzino. O Flamengo temia que o menino poderia ter problemas para se adaptar ao futebol profissional. Desde novo, Zico fez tratamento para ganhar massa muscular. Sofreu nos primeiros anos. 

Só quando se mostrou mais forte, passou a fazer parte do time. A estreia em partidas oficiais aconteceu em 07 de agosto de 1971. Na Ilha do Retiro, o Flamengo perdeu para o Sport, pelo Campeonato Brasileiro. Zico terminou aquele ano com 17 jogos e dois gols. 

No ano seguinte, Zico não teve tanto espaço com Zagallo. Fez apenas oito jogos oficiais em 1972, já que o Velho Lobo achava que o meia tinha sido lançado de forma precoce. O Galinho acabou ficando de fora da Olimpíada daquele ano por ter entrado pouco em campo. 

O início dos títulos e dos gols

Só a partir de 1973 que as coisas passaram a melhorar para Zico. O jovem, apesar de ainda não ser um titular incontestável, foi recebendo mais espaço no time. Conquistou a Taça Guanabara, apesar de não ter sido campeão carioca (o Flu levou a melhor na decisão), e jogou 35 vezes, marcando oito gols. Marcou pela primeira vez em clássicos oficiais (um contra o Vasco, outro contra o Botafogo).

Mas o ano da virada para Zico foi em 1974. Nesse ano, o Galinho vestiu a primeira vez a camisa 10 rubro-negra, para não largar mais. Naquela época, o calendário começava com o Campeonato Brasileiro e acabava com o Carioca. No Brasileiro, Zico já foi um estouro. 

Apesar de o campeão ter sido o Vasco, Zico foi eleito o melhor meia e o melhor jogador daquele campeonato. O meia, agora com a 10, passou a se destacar também pelos gols. Chegou a ter sequência de quatro jogos seguidos marcando. Somou 12 gols em 19 jogos. 

No Carioca, Zico também foi o melhor jogador e o Flamengo foi melhor, ganhando a competição. Em 27 jogos, o meia marcou 19 vezes. Começava, ali, a escrever uma enorme história goleadora e também de títulos com aquela camisa. 

Artilheiro decisivo

Os números só aumentariam nas temporadas seguintes. Em 1975, apesar de o Fla não ter conquistado títulos, Zico voltou a ser eleito um dos melhores do Brasileiro e se destacou também no Carioca. Foram 40 gols em 56 jogos oficiais. A média no Carioca, por exemplo, foi superior a um gol por partida (30 gols em 29 jogos). 

Apesar de ter ouvido vaias da torcida rubro-negra por perder pênalti na final da Taça Guanabara, 1976 ficou marcado na carreira de Zico como o ano do primeiro jogo na seleção. Em fevereiro de 1976, o Galinho marcou logo na estreia, contra o Uruguaio, e deixou a marca também diante da Argentina, em amistoso seguinte, ambos com vitória por 2 a 1. O Zico artilheiro se mostrava também na seleção. 

A primeira Copa do Galinho

Zico não demorou a convencer de que teria de ser presença constante na seleção brasileira. Tanto que acabou entre os escolhidos para jogar a Copa do Mundo de 1978, na Argentina. A tão polêmica e marcante Copa na Argentina. 

O Brasil tinha, lado a lado, o grande ídolo flamenguista, Zico, e o grande ídolo vascaíno, Roberto Dinamite. O time era brilhante, com Toninho Cerezo, Batista, Dirceu, Rivellino, Reinaldo... A campanha caminhava também bem. 

Zico foi titular nos dois primeiros jogos da Copa, mas só marcou quando saiu do banco, diante do Peru. Os brasileiros fizeram 3 a 0 nos peruanos, que acabaram levando uma inexplicável goleada da Argentina, que avançou para a final com o placar. Zico e companhia acabaram terminando em terceiro, superando a Itália. O Brasil terminou aquela Copa invicto. 

Nunca se viu tantos gols

1979 foi o grande ano de Zico em termos de gols. O meia comandou o título carioca do Fla com incríveis 60 gols em 43 jogos do torneio. Ao todo naquela temporada, foram 65 tentos em 51 jogos oficiais, com média de 1,27 gol/jogo, a melhor da carreira do Galinho. 

Em 1980, Zico guardou os gols para o Campeonato Brasileiro, somando 21 tentos em 19 partidas. Chegou a marcar quatro contra o Itabaiana e três contra a Desportiva Ferroviária. Na semifinal, foi decisivo marcando os dois da vitória sobre o Coritiba, na ida. 

O meia conquistou o seu primeiro Campeonato Brasileiro com a camisa rubro-negra diante do Atlético Mineiro, marcando um dos gols daquela decisão. A rivalidade de um timaço do Flamengo contra outra equipe dos sonhos do Atlético seguiria nos anos seguintes. 

No topo do mundo

Com o título brasileiro de 1980, Zico e Fla foram desfilar sua categoria na Libertadores. O clube da Gávea nunca tinha conquistado o torneio, mas nunca se deve subestimar Zico. Mais uma vez decisivo, o meia carregou aquele time em campanha histórica. 

O Rubro-Negro já tinha sido campeão carioca quando começou a desafiar adversários pela América. A campanha passou pelo Atlético Mineiro, em confronto histórico, e teve o ápice em batalhas contra os chilenos do Cobreloa. 

No Maracanã, vitória carioca, com dois gols de Zico. No Chile, muita pancadaria e triunfo chileno. A decisão ficou para um terceiro jogo, a ser disputado no Uruguai. Zico, mais uma vez, foi protagonista. O meia conseguiu sair da violência chilena e marcou os dois gols do título, o segundo de falta, sua marca registrada. O meia foi o artilheiro daquela Libertadores, com 11 gols.

Ainda em 1981, o campeão da América se tornou campeão do mundo. O Flamengo aplicou um baile na final do Mundial contra o Liverpool, fazendo 3 a 0 e se consagrando como uma das grandes equipes que o futebol brasileiro já viu. 

Decepção no Sarriá

Em 1982, Zico, que seria campeão brasileiro com o Fla mais uma vez, queria ter chegado no topo do mundo também com a seleção brasileira. E tinha motivos para sonhar, já que a seleção, comandada por Telê Santana, formou um dos grandes times da história do futebol. 

As atuações na Copa na Espanha encantavam o mundo. Um futebol bonito, de passes bonitos, dribles e pura mágica. O Brasil passeou com 4 a 1 sobre a Escócia (Zico fez um) e 4 a 0 sobre a Nova Zelândia (dois de Zico). Contra a Argentina, se viu um duelo de dois camisas 10 dos mais talentosos da história. 

De um lado, Diego Maradona acabou expulso. Do outro, Zico abriu o placar e deu assistência para Serginho Chulapa confirmar a vitória brasileira por 3 a 1. Tudo caminhava para um título, até que apareceu a Itália no caminho dos brasileiros. 

A Itália do experiente goleiro Dino Zoff. A Itália de Paolo Rossi, que virou carrasco brasileiro. O Brasil que encantou o mundo perdeu para a Itália, por 3 a 2, no Sarriá, e deu adeus ao sonho de título mundial. Leandro, Oscar, Júnior, Sócrates, Zico, Cerezo, Falcão e companhia deram adeus para aquela Copa genial. 

Despedida da Gávea com título

Em 1983, Zico, então com 30 anos, conquistou mais uma vez o Brasileiro com o Flamengo. Foi decisivo no mata-mata, marcando contra o Vasco, nas quartas, contra o Atlético Paranaense, na semifinal, e na decisão, diante do Santos. 

Aquele título foi uma espécie de "até logo" ao torcedor rubro-negro. Zico deixou o país em seguida para jogar na Udinese, em transação que chocou a muitos na época por Udine não ser lá exatamente o grande centro do futebol italiano. 

Zico chegou na cidade nos braços do povo, parando a cidade, que o tratava como rei. Dentro de campo, o meia tentou retribuir. Foi o craque que o time precisava e, apesar de não conseguir a missão quase impossível de levantar taças por lá, marcou 19 gols em 24 jogos no primeiro Campeonato Italiano. Na artilharia, ficou abaixo apenas de Michel Platini, da Juventus. 

Na temporada seguinte, porém, começaram os problemas de Zico na Itália. O meia teve problemas de lesões em campo e, fora das quatro linhas, sofria com problemas com o fisco. Acabou decidindo retornar ao Brasil. E retornar para onde?

Retorno para a Gávea e outra Copa 

O Flamengo não tinha condição financeira nenhuma de receber Zico, mas foi ousado. Com inédito projeto de marketing, conseguiu, junto a empresas, bancar o retorno de seu maior ídolo, que funcionaria como uma espécie de garoto-propaganda. 

As principais preocupações da diretoria flamenguista, entretanto, acabaram se confirmando. Zico sofreu com problemas físicos e, no primeiro ano de retorno, fez apenas seis partidas oficiais, com três gols. Em 1986, foram apenas quatro partidas. 

Ainda assim, Zico foi para mais uma Copa do Mundo. Em 1986, voltou a defender a seleção brasileira no México. E reencontrou Michel Platini, antigo rival de futebol italiano, nas quartas de final daquela Copa, diante da França. 

O jogo acabou empatado, em 1 a 1. Careca abriu o placar para os brasileiros, mas Platini empatou. Zico teve a chance da vitória em cobrança de pênalti no segundo tempo, mas não aproveitou e o Brasil acabou eliminado em decisões por pênaltis. Foi a despedida do camisa 10 brasileiro de Copas, com certa melancolia. 

Últimos anos e idolatria no Japão

Em 1987, Zico teve lampejos de grandes momentos. Na semifinal do Campeonato Brasileiro, se inspirou no duelo contra o antigo rival, Atlético Mineiro, e marcou na vitória em Belo Horizonte, por 3 a 2. No fim, celebrou o título contra o Internacional. 

Zico jogou no Fla até 1989. É o maior artilheiro da história do clube e, em jogos oficiais, somou 404 gols em 588 partidas. Na década de 1990, resolveu ter uma experiência no futebol japonês, e ajudou na profissionalização do esporte no país. 

Se tornou ídolo do Kashima Antlers. Ainda foi capaz de agraciar os torcedores japoneses com lances geniais. Foram quatro temporadas por lá, até que Zico encerrou a carreira em 1994. Virou tão ídolo no Japão que iniciou carreira de técnico ainda no Kashima. 

Anos mais tarde, comandou a seleção japonesa. Pelo país, conquistou a Copa da Ásia em 2004. Em 2006, comandou o Japão na Copa do Mundo, e chegou a enfrentar o Brasil (acabou derrotado por sua pátria). 

Como técnico, foi ídolo também na Turquia, comandando o título turco do Fenerbahçe no ano do centenário do clube. Levou a equipe também para as quartas da Liga dos Campeões e ao título da Supercopa do país. 

Trabalhou ainda em outros países da Ásia e da Europa. Voltou ao Kashima para trabalhar já nos bastidores, e é idolatrado sempre onde passa. Zico foi muito mais que o grande ídolo da história do Flamengo. O que, por si só, já não seria pouco... 

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Zico contra Argentina no Mundial 82
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