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Mané Garrincha: o Anjo das Pernas Tortas

Texto por Carlos Ramos
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A figura de Garrincha fazia toda sua genialidade ter um sentido. Como um homem de 1,69 cm, com as pernas tortas, conseguiria fazer sucesso no futebol? Só sendo um gênio. E Garrincha o foi. O Gênio das Pernas Tortas, chamado por muitos de Anjo. 

Anjo, talvez, porque fazia sonhar. Quem ia ao Maracanã ver Garrincha, com certeza, sonhava, e via, em campo, o sonho se tornar realidade. A Arte estava em campo, com A maiúsculo. Garrincha estava em campo. 

Fazia cada zagueiro se tornar mais um João. Afinal, fosse quem fosse o zagueiro, ele, com certeza, não conseguia parar Garrincha. Mesmo sabendo para que lado o Mané ia driblar. Era impossível. Era Arte. Era Garrincha. 

Antes de ser caçado, Garrincha era caçador

Antes de ser caçado em campo pelos zagueiros, Garrincha era caçador. Sim, o menino Manoel dos Santos gostava de caçar o pássaro Garrincha em Pau Grande, Distrito de Magé, no Rio de Janeiro. A partir daí, Manoel virou Garrincha, apelido colocado pela irmã. 

O menino deixou Pau Grande no início da década de 1950. Foi para General Severiano, e encantou a todos no Botafogo. Mesmo com as pernas feito um bambolê, deixava tonto nos treinos um dos maiores laterais da história, Nilton Santos. 

Tanto que Nilton fugia de treinar contra Garrincha. Na biografia de Garrincha, escrita por Ruy Castro, o autor cita o desespero do lateral ao tentar parar Mané. "Didi, fala com ele para não fazer mais isso!”, disse Nilton para o experiente meia Didi, que tentou conversar com Garrincha. 

Garrincha seguiu driblando Nilton Santos, e acabou o treino com a barriga vermelha de tanto apanhar. Se apanhava de Nilton nos treinos, imagina nos jogos, contra os zagueiros adversários... O difícil era encontrar Garrincha em campo. 

O gênio das pernas tortas, inclusive, foi um dos motivos da saída de Gerson do Flamengo. O meia deixou a Gávea depois do técnico Flávio Costa ter pedido para ele tentar marcar Garrincha. "Se seis russos não marcaram ele, eu vou marcar? Eu não sou marcador, cara! Entrei lá e fui mais um João", disse Gerson, anos mais tarde, para o canal Sportv. 

Com a camisa do Botafogo, Garrincha chegou a criar até o grito de "olé". Foi em uma excursão do Botafogo ao México, em 1957. Quem conta a história é João Saldanha, técnico do Botafogo na época, em seu livro Histórias do Futebol. 

"Toda vez que Mané parava na frente de Vairo, os espectadores mantinham-se no mais profundo silêncio. Quando Mané dava aquele seu famoso drible e deixava Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas exclamava: ‘Ô ô ô ô ô ô-lê!'”. Foi ali, naquele dia, que surgiu a gíria do ‘olé’. As agências telegráficas enviaram longas mensagens sobre o acontecimento e deram grande destaque ao ‘olé’. As notícias repercutiram bastante no Rio e a torcida carioca consagrou o ‘olé'”.

O João russo

Nilton Santos e Gerson não foram só sofrimento com Garrincha. Ambos conquistaram títulos com o craque tanto no Botafogo quanto na seleção brasileira. Com a camisa do Glorioso, Mané foi três vezes campeão carioca e duas do Rio-São-Paulo. 

Em 1958, esteve com a delegação brasileira na Copa da Suécia. Nos dois primeiros jogos, ficou no banco, sem entrar. Contra a União Soviética, jogo decisivo, Garrincha foi titular, e fez de João a defesa soviética. 

"Muitos de nós se sentiriam superhomens, sobre tudo na hora de um drible de Garrincha num João russo", escreveu no Jornal dos Sports em 1958 Mário Filho. A frase resume bem o que foi aquela partida, vencida pelo Brasil, por 2 a 0. Nelson Rodrigues foi além: "a desintegração da defesa começou exatamente no primeiro momento em que Garrincha tocou a bola”.

Garrincha foi titular até o fim daquele Mundial e, na parceria incrível com Pelé, ajudou o país a conquistar o primeiro título da Copa. A parceria com Pelé durou até 1966. Os dois nunca perderam juntos: das 32 partidas oficiais, ou seja, excluindo amistosos contra clubes, Pelé e Garrincha venceram 28 e empataram quatro. Pelé marcou 33 gols e Garrincha anotou seis.

Mané sem Pelé 

Quatro anos depois do primeiro título mundial, o Brasil lutou pelo bi no Chile. A seleção perdeu Pelé machucado logo no segundo jogo. Coube a Garrincha ser o grande protagonista daquela conquista. O atacante marcou duas vezes nas quartas de final, contra a Inglaterra, e outras duas na semifinal, contra o Chile. 

Em 1966, Garrincha e Pelé só jogaram juntos na estreia do Brasil naquela Copa, contra a Bulgária. Cada um fez um gol, no último jogo de ambos juntos. No jogo seguinte, sem Pelé, o Brasil perdeu para a Hungria. Em seguida, sem Mané, a seleção perdeu para Portugal e deu adeus ao sonho do tri. 

No total, Garrincha fez 50 jogos e 12 gols pela seleção brasileira. Naquela Copa de 1966, o gênio já sentia os problemas no joelho. A carreira foi entrando em decadência, e passagens por Corinthians e Flamengo não tiveram tanto sucesso. Garrincha encerrou a carreira em 1972, pelo Olaria. 

Garrincha ainda jogou amistosos após se aposentar, mas acabou afundado no alcoolismo. Por vezes, reclamou do abandono, inclusive de Pelé. Morreu na pobreza, em 20 de janeiro de 1983, vítima de cirrose hepática. A Estrela Solitária encontrou o céu, embora fosse no campo que ela brilhasse mais. 

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