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        Boca x River: o verdadeiro Superclássico

        Texto por Carlos Ramos
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        Poucos clássicos no futebol mundial podem se comparar com Boca Juniors x River Plate. O duelo argentino parece ser único, e faz valer o título de Superclássico. Em pensar que tudo começou em uma rivalidade de bairro, até chegar a mexer com um país inteiro. 

        O clássico foi clássico antes mesmo de os dois times estarem frente a frente em campo, ainda no início do século passado. Ambas equipes foram fundadas no bairro de La Boca: primeiro o River, depois o Boca. Ambas com a influência italiana na região: daí as cores de um (o branco e vermelho genovês do River), e o apelido do outro (Xeneizes, também em referência aos imigrantes italianos). 

        Reza a lenda que, após uma enquete de um jornal em 1911 sobre qual clube tinha a maior torcida do bairro, houve briga entre os rivais. A rivalidade na região era tão forte que, anos mais tarde, o River decidiu mudar para Belgrano. 

        No novo bairro, nascia uma rivalidade também forte: o River Plate, que tinha tal nome por causa do Rio da Prata, passou a ser a equipe dos ricos, os chamados Millionarios, já que a região da nova sede era uma das mais ricas da cidade. O confronto entre iguais do bairro passou a ser o duelo entre ricos x pobres, o povo x elite. 

        As contratações milionárias do agora time de Nuñez, como Di Stéfano, e o monumental estádio construído ajudavam a aumentar o duelo de classes. Para o Boca, tudo foi sempre mais sofrido, conquistado na raça, sem muito luxo. 

        O Boca se manteve nas raízes, em La Boca, com a lendária, e muitas vezes precária, Bombonera. O River foi para o bairro dos ricos construir um estádio de ricos, que logo se tornou no Monumental de Nuñez. A mudança só aumentou o tamanho da rivalidade. 

        Os confrontos e os ídolos

        Boca e River começaram a duelar ainda no amadorismo. Os Xeneizes se filiaram a AFA só em 1908, começando a atuar já na segunda divisão local. Em 1913, o Boca subiu para a primeira divisão fora do campo, e  com apoio do River, que já estava na elite desde 1908. 

        A imprensa local data o primeiro Superclássico oficial da história em 24 de agosto de 1913. No campo do Racing, os rivais se enfrentaram pelo Campeonato Argentino. Os Millionarios venceram por 2 a 1, apesar de, segundo relatos da época, os Xeneizes terem jogado melhor. 

        Em crônica do jornal El Nacional, foi "um match brilhante pelo estilo de jogo, entusiasmo dos jogadores e do numeroso publico que o presenciava, tudo contribuindo para fazê-lo único". Ainda de acordo com o relato, no duelo entre "antigos e fortes rivais do sul de Buenos Aires", houve certa violência, que acabou não coibida pelo árbitro Mc. Carthy. 

        A rivalidade seguiu ao longo dos anos, e foram se formando ídolos dos dois lados. Ángel Labruna é considerado o maior artilheiro do duelo e um pesadelo para as defesas do Boca entre os anos de 1939 e 1956. 

        Contemporâneos de Labruna foram Amadeo Carrizo, histórico goleiro millionario, Jose Manuel Moreno, um dos grandes atacantes argentinos, e Alfredo Di Stéfano. Foi nessa época, entre 1945 e 1957, que houve a maior diferença de títulos argentinos entre os rivais: foram sete do River contra apenas um do Boca. 

        Apesar de um dos grandes goleadores da história do clube ter atuado na década de 1930 (El Pancho Varallo), o Boca viveria anos mais gloriosos, inclusive internacionalmente, só décadas depois, quando outros grandes ídolos surgiriam. 

        Diego Armando Maradona, grande ídolo argentino, definiu que jogar o Superclássico é "como dormir com Julia Roberts". "Joguei o Barcelona x Real Madrid, mas Boca x River é diferente". Ídolo do Boca, Maradona fez duelos lendários contra Francescoli, mas nunca levou a Libertadores para a Bombonera. 

        A geração que mais soube erguer o troféu pelo clube foi a de Schiavi, Riquelme, Ibarra, Schelotto e companhia. No período, o artilheiro Palermo aproveitou para se tornar o grande goleador da história xeneize

        No final do século passado e início do atual, o time de Nuñez também contou com grandes craques. Venceria sua segunda Libertadores em 1996 no encontro da geração de Francescoli e Ramón Díaz com Hernán Crespo, Marcelo Gallardo, Ortega, Saviola, Salas, Aimar e D´Alessandro. 

        Queda e renascimento do River

        No meio dessa troca de gerações, os Millionarios acabaram entrando em crise. Sob o comando do presidente José María Aguilar, a gestão administrativa afunda o clube. Vendo o rival ganhar repetidas vezes a América, o River sucumbia. 

        O fundo do poço chegou em 2011, com o rebaixamento para a segunda divisão. Só com a volta dos ídolos, banidos pelos dirigentes anteriores, o River conseguiu se resgatar. Com Ramón Díaz, o clube voltou a ser campeão argentino. Com Marcelo Gallardo, voltou ao topo da América. 

        Um clássico continental

        Ao longo da história, Boca Juniors e River Plate já se enfrentaram 25 vezes na Libertadores. A vantagem é do time da Bombonera, com dez vitórias, contra oito do rival de Nuñez. Foram sete igualdades. 

        Em 2018, o confronto teve o capítulo mais importante da história. Considerado um dos jogos mais importantes da história do futebol, Boca x River Plate se enfrentaram na final da Copa Libertadores da América. 

        Após empate em 2 a 2 na Bombonera, o duelo teve de ser remarcado para Madri, capital espanhola, depois de a torcida do River apedrejar o ônibus do rival em Nuñez. No estádio do Real Madrid, os Millionarios se sagraram campeões do torneio, vencendo na prorrogação por 3 a 1. 

        Antes disso, os rivais só haviam se enfrentado em duas finais: na final do Nacional de 1976, com vitória do Boca (1 a 0), e na decisão da Supercopa Argentina de 2018, com vitória dos Millionarios

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